Sobre morrer

sexta-feira, outubro 17, 2014 Ariadne 0 Comments

Penso que já aqui falei antes sobre o meu medo da morte. Não é propriamente da morte que eu tenho medo, mas sim do sofrimento. Sofrer dores indescritíveis e ter uma qualidade de vida horrivelmente possível é o que me assusta; ver quem mais amo a sofrer também me dá um aperto impossível no coração. Quando um dia acontecer, gostaria que fosse rápido e imediato; é pedir muito.

Eu sou a favor da eutanásia. Eu sou a favor de, em casos de não retorno, de doenças terminais, poder escolher terminar a minha vida de forma pacífica e indolor. Claro que conheço os argumentos contra a eutanásia: pode haver uma descoberta na ciência que permite, não digo curar, mas melhorar a qualidade de vida do doente terminar, prolongar a vida, impedir a progressão da doença; o diagnóstico pode ter sido mal feito. No entanto, nós não conhecemos o futuro. Da mesma forma que temos esperança que viveremos muitos e bons anos, e temos todo o tempo do mundo para fazer seja o que for, a realidade é que pode acabar amanhã, senão hoje. E este acabar não significa morrer; é isto que mais me assusta: ficar incapacitado. É também por esta razão que não quero chegar a velha; não é envelhecer, mas sim chegar àquela idade em que não temos domínio sobre as nossas capacidades motoras e mentais, em que dependemos dos outros para sobreviver (porque já não é viver), em que estamos cada vez mais sozinhos porque os novos estão (e muito bem) a aproveitar a vida, em que cada dia que passa o sofrimento é mais intenso.

Já muitos conhecem a história da Brittany Maynard, a rapariga que escolheu o dia em que vai morrer. Só hoje vi um vídeo sobre a sua história.


Ela escolheu não sofrer. Não digo que, perante a mesma situação, tivesse a coragem de fazer o mesmo, mesmo tendo medo do sofrimento. Não digo que ela seja capaz de levar tudo até ao fim de forma tão serena como ela descreve a situação; já teve muito tempo para se mentalizar e para amaldiçoar tudo e todos, já aparenta ter aceitado minimamente a situação, mas quem quer verdadeiramente morrer?

Este é um assunto muito pesado e que me deixa sempre com muitas dúvidas; felizmente já me passou a fase do "isto tudo não tem sentido, de que vale estarmos cá"; agora é só mesmo "isto não tem sentido, mas já agora vou aproveitando e fazendo o que me dá prazer".

Que cada um viva a sua vida como achar melhor, com os objetivos que quiser, com a paixão que quiser. Se, por alguma razão, a minha vida encurtasse subitamente, não ia ficar contente por ir, é claro que não, mas posso verdadeiramente dizer que gosto da forma como tenho estado a viver.

0 comentários :

Partilhem a vossa história comigo. Todos os comentários serão respondidos nesta página, por isso toca de selecionar a opção "Notificar-me" no cantinho direito ;)