Esperança de vida

sexta-feira, dezembro 19, 2014 Ariadne 0 Comments

O texto de hoje vai ferir muitas suscetibilidades. Hoje irei falar sobre os velhos; não utilizo esta palavra com sentido pejorativo, mas apenas como explicativo de idade.

Mas alguém me explica as grandes vantagens de se ter expandido a esperança de vida? A maior parte da população vive, em média, até aos 75 anos, mas existe mesmo muitas pessoas que vivem até aos 80/90 anos. O aumento da esperança de vida foi conseguido através do aumento da qualidade dos serviços de saúde, higiene, trabalho, educação; as pessoas já não esperam viver até aos 60 anos, mas mais. As doenças que dantes matavam mais frequentemente passaram a ser controladas por medicamentos e serviços de saúde, e passaram a ser doenças crónicas - persistem até ao final da vida, mas já não matam logo. As epidemias causadas pelas más condições higiénicas terminaram com os saneamentos públicos, controlo de pragas e medicamentos. 

Agora, façamos uma análise ao que implica viver mais anos (não estou a falar de "envelhecer", mas sim de "ser velho").
Muitas pessoas envelhecem bem, com relativa saúde, continuam lúcidos, funcionais e relativamente independentes (questões de mobilidade, tarefas quotidianas); no entanto, a maior parte da população idosa tem uma qualidade de vida péssima!

Os velhos de hoje em dia têm inúmeras doenças; prolongou-se o tempo de vida, mas a realidade é que vivem mais anos a sofrer de alguma patologia. Ele é diabetes, ele é doenças cardiovasculares, ele é dores nas pernas, ele é não conseguir andar, não conseguir realizar simples tarefas porque tem dores só de piscar os olhos. Então, vamos tomar o medicamento A, mais o B e o C para controlar a doença 1, assim como o medicamento F para a doença 2, mas os medicamentos A, B, C e F provocam aqui mais uma condição, então tomamos o medicamento D para resolver isso.
Aumentou-se o número de anos que se vive através do consumo de medicamentos, mas os medicamentos acabam por matar também. Destroiem o fígado, os rins, o estômago, os músculos!...
Eu nem falo das doenças degenerativas como o ALzheimer, que são mais frequentes na velhice. Perder a noção de quem somos, do que nos rodeia, perder a capacidade de pensar, de agir, de tomar banho!...
Depois acrescem os gastos com medicamentos. A maior parte dos velhos na reforma não têm dinheiro para tanto medicamento que tomam para aumentar o número de anos que vivem com aquelas doenças que já não os matam imediatamente (imediatamente no sentido de semanas, meses, um a dois anos) para matarem daí a uma década ou menos. Isto se entretanto não aparecer uma nova doença fulminante que torna inútil todo o esforço empreendido.

Calma, eu não estou a dizer para se matar as pessoas a partir de uma certa idade!! Estou apenas a fazer uma análise àquilo que vejo todos os dias.

Saltando do tema das doenças para o tema da qualidade de vida. Claro que estes dois aspetos estão interligados: quantas mais doenças, ou quanto pior a doença, pior a qualidade de vida. Mas falemos daqueles que até envelhecem com um estado de saúde relativamente bom. Os filhos crescem, naturalmente têm as suas próprias vidas, os netos crescem, deixam de precisar dos avós e passam mais tempo sem os ver; os velhos vão ficando cada vez mais sozinhos, especialmente se a família viver noutra cidade/aldeia/país. Ninguém está à espera que a família deixe de viver a sua vida para fazer companhia aos velhos; é apenas uma constatação. Quantas não são as notícias de mais um idoso encontrado morto há dias em casa; muitos outros casos existirão que não reportados. Quantas não são as notícias de idosos que se suicidam por se sentirem sozinhos; eu acredito seriamente que estas pessoas pensaram "Já vivi a minha vida, não há muito mais que me espere. Não vale a pena estar aqui sozinha, sem ninguém". É triste, é mesmo muito triste, mas é a realidade.

O ciclo de vida do humano dos países desenvolvidos é simples: nasce, brinca, vai para a escola onde permanece um mínimo de 12 anos, trabalha (arduamente ou não) durante décadas, reforma-se, morre. Durante os anos de trabalho, muitos sonham com o tempo da reforma para poderem realizar muitas das coisas que não conseguem fazer durante esses anos; afinal, trabalharam para ter uma reforma decente que os permita descansar, quem sabe viajar, ver os netos (se os tiverem) crescer, aproveitar os anos de ouro. O que é que acontece na boa parte dos casos? Estão doentes, desgastados pelos anos de trabalho, a reforma não dá para os medicamentos e comida quanto mais para passear, têm de (ajudar a) criar os netos porque os filhos estão a trabalhar intensivamente para dar aos filhos.... E com isto tudo lá se foram os anos de glória. Não aproveitaram enquanto eram novos e não conseguiram quando eram velhos.

Neste país não há respeito pelos velhos. Não há! Quem tem paciência para os ouvir, para cuidar deles, para os ajudar a atravessar a rua ou a carregar as compras, para fazer companhia? Quantos não são aqueles que são largados em lares para que outros se encarreguem deles? Quantos são aqueles que os ouvem contar histórias de acontecimentos (interessantes ou não) das suas vidas? Quem tem paciência para os ouvir queixar? Quantas não são as vezes que se ouve na estrada "Raio do velho não sabe conduzir"? (verdades sejam ditas: com a diminuição das capacidades cognitivas, muitos velhos já não deviam conduzir porque não se colocam apenas a si em perigo como a outros também) 
Ninguém ajuda um velho em dificuldades na rua porque lhe caiu algo e ele está com dificuldades em se dobrar para apanhar. Ninguém ajuda um velho a entrar, sentar, descer do autocarro. 
Quantas não são as pessoas que desviam o olhar!!!
Não sou nenhuma santa; também não tenho paciência para os queixumes, mas há muita falta de respeito geral, e com os velhos em específico.
Os piores casos são aqueles em que a família simplesmente não se interessa, não ajuda. Existe, mas é como se não existisse. Os pais criaram-nos, mas os filhos já não querem saber dos pais nos casos de necessidade. "Dá muito trabalho".....

É a realidade dos dias de hoje. Claro que há coisas boas na velhice; há muitas pessoas com sorte que, mesmo tendo uma baixa qualidade de vida em termos de saúde, têm quem os ajude (familiares ou não), quem lhes dê atenção, que lhes oiça os queixumes, mesmo que sejam os mesmos de ontem e anteontem. Há aqueles que conseguem gozar da reforma, mesmo que não tenha sido aquela que tenham inicialmente planeado.

O nosso país está envelhecido e a faixa etária predominante não é atrativa...
A sorte é que ainda existem pessoas boas que tentam ajudar os velhos da nossa nação e eu espero que essas pessoas tenham orgulho em quem se tornaram. 

Gosto dos meus avós. Podia respeitá-los um pouco mais, é certo, mas apesar de não os ver com tanta frequência, ajudo-os sempre que precisam, desde consultas médicas, transporte, interpretar cartas (infelizmente são analfabetos, o que me custa ainda mais). Muitas vezes não tenho paciência para a minha avó, mas avós são avós e gosto deles tal e qual. Um dos avôs está num lar porque os filhos não têm condições ou paciência para cuidar dele; ele próprio disse que queria ir para um lar para que cuidassem bem dele. Eles até envelheceram bem; só tiveram problemas de saúde em idade avançada.

A idade é tramada.


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