Genéricos

terça-feira, janeiro 13, 2015 Ariadne 4 Comments

Dia típico na farmácia
- Vinha levantar esta receita
- Bom dia. O que der para ser genérico quer levar, ou prefere a marca?
- Ah eu não quero nada disso genérico. Isso não faz nada efeito! Eu quero mesmo [por exemplo] a paroxetina da mylan.
- Pois, isso é genérico.
- Não é nada.
- É sim. Diz "MG" na caixa, o que significa "Medicamento Genérico"

Ora, vamos lá falar sobre genéricos e perceber um pouco melhor o que isto é. Vou usar alguns termos técnicos, mas se não perceberem, deixem comentário que eu esclareço melhor. As fontes utilizadas vão estar todas no final do post.

Genérico
Um medicamento genérico é um medicamento com a mesma substância activa (aquilo que faz efeito), forma farmacêutica (comprimidos, xarope, supositórios, etc.) e dosagem (5/10/12,5/etc. mg/g/mL/etc.) e com a mesma indicação terapêutica que o medicamento original, de marca, que serviu de referência.
Por exemplo: Paracetamol Generis 1g é o genérico do Ben-U-Ron 1g. 

A qualidade de um medicamento genérico é assegurada pelo portador da Autorização de Introdução no Mercado desse mesmo medicamento, ou seja, o laboratório/companhia farmacêutica que quer introduzir um medicamento no mercado, seja ele genérico ou não, tem de realizar uma série de testes que assegurem a segurança e eficácia do medicamento. No caso dos medicamentos genéricos, para além destes testes de segurança e eficácia, têm de ser realizados testes de bioequivalência que demonstrem que esse genérico faz o mesmo efeito, no mesmo intervalo de tempo que o medicamento original. Segundo a lei, um medicamento genérico tem uma margem máxima de diferença do original de 20%. Esta é, de facto, uma margem muito grande e é o que torna os genéricos diferentes uns dos outros.

O farmacêutico é obrigado a informar o utente sobre a existência de medicamentos genéricos comparticipados pelo Serviço Nacional de Saúde e sobre aquele que tem o preço mais baixo.

Porque é que os genéricos não saem ao mesmo tempo que os originais? Porque é que os genéricos têm uma diferença de preço tão grande?
Quando sai um medicamento novo no mercado, o titular da patente do medicamento tem os direitos exclusivos desse medicamento durante, sensivelmente, dez anos. Findado este prazo, a "fórmula secreta" do medicamento fica disponível e outros laboratórios podem começar a fazer as suas versões desse medicamento. O que acontece muitas vezes é que o titular da patente coloca processos em tribunal para tentar prolongar o tempo de exclusividade, isto é, o tempo em que consegue ter maiores lucros. No entanto, a certa altura, acaba-se a exclusividade e os outros laboratórios podem produzir a sua versão do mesmo medicamento. Agora, porque é que, em relação ao mesmo medicamento, mas de marca, o genérico é tão barato?
Imaginem que vocês estão a descobrir uma nova receita de um bolo. Até acertarem com a fórmula certa, gastaram imensos ovos, farinha, diversos ingredientes, e tempo. Tudo isto teve um custo, chamado custo de investigação, que depois tem de ser recuperado. O preço do medicamento original tem em conta estes gastos de investigação. Vocês descobriram a fórmula certa, fazem uma patente para terem os direitos exclusivos, mas a certa altura a patente finda e a receita (ingredientes, quantidades, modo de preparação) fica disponível ao público e este vai reproduzir a vossa receita. Como eles já não vão ter aquele trabalho todo de investigação, não vão precisar de incluir esse gasto no preço final, o que torna o medicamento muito mais barato.

Desvantagens
Como disse acima, existe a possibilidade de o genérico ser, até 20%, diferente do original. O que isto significa na realidade é que, apesar de fazer o mesmo efeito que o original, demora mais tempo a começar a fazer efeito. Supondo que o original demora 5 minutos a atingir aquela concentração no organismo que faz efeito, há certos genéricos que podem demorar até 20min a fazer efeito. Em certo tipo de doenças ou situações de crise, esta diferença de 15min pode ser muito perigosa.
Outra desvantagem é o preço. Apesar de serem mais baratos que o original em 90% dos casos (já existem originais que são mais baratos que o seu genérico), o preço dos genéricos variam entre si; aqui entra o conceito de genérico de marca. Para um mesmo medicamento, existem diversos genéricos, de diversos laboratórios; a substância é a mesma, mas a tal margem de 20% é que varia, existindo laboratórios que têm uma margem de diferença do original de apenas 5%, o que é muito bom. Para um mesmo medicamento, os genéricos correspondentes variam de preço, havendo uns bem mais caros do que outros. Daí que se tenha criado o grupo com os 5 genéricos mais baratos. Outra coisa a ter em atenção é que o preço dos medicamentos, genéricos e originais, varia a cada três meses.
Uma outra desvantagem associada ao preço é que existem genéricos tão baratos que as pessoas nem querem pedir receita médica. Isto é mais problemático com aqueles medicamentos que causam dependência e que as pessoas não deviam tomar com regularidade, ou que deviam ser mais controlados pelos médicos, mas como não lhes compensa pedir receita, exigem levar o medicamento sem a receita médica. Caso haja uma inspeção às farmácias que tenha como alvo averiguar a dispensa desses medicamentos sem a receita, as farmácias podem ver-se em apuros; no entanto, quem faz as inspeções sabe como está o negócio das farmácias hoje em dia, e pouco olham para esse aspeto.
Do ponto de vista de gestão, os genéricos são muito bons para o Estado, porque significa que têm de pagar menos às farmácias. No entanto, o preço tão baixo dos genéricos traz uma baixa margem de lucro para as farmácia. Por esta razão, uma farmácia comercializa os genéricos de uma marca em detrimento de outra, consoante as margens de lucro que cada grupo lhes oferece. É tudo negócios meus amigos.

O que escolher: genérico ou original?
Isto tem muito a ver com o tipo de situação/doença. Uma pessoa acabada de sair do hospital por ataque cardíaco, ou AVC - situações de emergência imediata: o original, para se ter a resposta o mais depressa possível. Depois de controlada, pode passar para o genérico. 
Quando uma pessoa faz um medicamento original há muitos anos, pode passar para um genérico que não há problemas.
Agora, há situações em que, uma vez iniciado o medicamento, seja ele genérico da marca A/B/K ou original, deve manter sempre esse mesmo medicamento para evitar variações de concentração de substância no fármaco. Um exemplo são os medicamentos para a doença da tiróide; são fármacos que não devem variar muito no organismo e devem ser sempre os mesmos. Não é uma questão do original ser melhor que o genérico, é mesmo questão de manter o organismo habituado àquele medicamento.
Quando a diferença de preço não compensa, na minha opinião leva-se o original, mais que não seja para assegurar a rapidez na obtenção do efeito. No entanto, há certos medicamentos que têm quase 30€ de diferença e são medicamentos que não são para aquelas situações mais urgentes, por isso o genérico é uma boa escolha.

O Português é muito desconfiado; a maior parte dos Europeus confia nos genéricos, sabe que faz o mesmo efeito e compreende a diferença de preço. O Português tem muito aquele estigma de que, se é barato, então não é bom. 
Eu faço genéricos; quando estava a tomar os antidepressivos, tomei genéricos e não me senti descompensada. Os únicos que não faço genéricos é porque não os há, ou porque a diferença de preço não compensa, como é o caso do Ben-U-Ron comprimidos.

Fontes:

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4 comentários :

  1. Considero os genéricos como as marcas brancas do Pingo Doce. Digo Pingo Doce porque por exemplo, uma torneira que enche as garrafas de frissumo enchem da marca Pingo Doce também. Além disso, se os genéricos são recomendados por quem sabe, qual o medo? Depois queixam-se que gastam muito nas farmácias...

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  2. Acho que as pessoas, mais do que ser genérico ou não, têm medo da diferença. Pelo menos com a minha avó é assim.

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  3. Esta publicação é mesmo útil, obrigada! Eu deixei de comprar Ben-U-Ron e comecei a adquirir Paracetamol Generis como no exemplo que deste assim como alguns medicamentos que tomo para a asma. No entanto, tenho colegas que mudaram de pílula anticoncepcional duma marca original para genérico e confesso que me faz um pouco de confusão.

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  4. Obrigada pelo comentário no meu blog! <3

    Quanto aos genéricos, eu peço sempre que posso, e a minha mãe também, mas às vezes na receita o médico de família não autoriza. -.-'

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