Combatendo a ansiedade - A origem

sexta-feira, janeiro 22, 2016 Ariadne 3 Comments


Tudo começou está quase a fazer três anos; quero que esta seja a última vez que conto em tão grande detalhe, porque reviver assim tanto causa alguma ansiedade. Lembro-me perfeitamente de estar na biblioteca a estudar, olhar em frente e de repente a sala começa a girar. A respiração começa mais ofegante, começo a sentir uma dormência no lado direito da cara, a garganta a apertar, a sala a fugir. A minha Mi foi comigo apanhar ar, deu um pacote de açúcar e depois passou; levei aquilo apenas como uma quebra glicémica, continuámos a estudar para o exame do dia seguinte. À noite, estava deitada no sofá, a ver CSI com a minha mãe, e de repente a televisão foge do lugar, a visão desfoca, deixo de sentir o lado direito do corpo e não consigo respirar. A minha mãe assustou-se imenso e eu juro que naquele momento não me lembro de estar a pensar em algo stressante, como o exame do outro dia. Liguei para a Saúde 24 (asneira!), suspeitaram tal como eu que podia ser um AVC, mandaram-me para as urgências mais próximas; passámos lá a noite, o médico disse que era stress e mandou-me para casa. No dia seguinte não fui ao exame, mas aquele foi o primeiro dia de uma série de meses cada vez a escalar mais. 

Ao longo dos meses seguintes tive mais ataques, fui para as urgências mais duas vezes, tive um ataque nas urgências por não me deixarem entrar nem ser vista por um médico (até hoje a lembrança dá-me vergonha), vi a minha mãe a ficar cada vez mais desesperada. Havia vezes em que eu não conseguia estar sozinha em casa, ia ter os ataques para a rua para o caso de me dar algo mesmo mau, os meus vizinhos verem e ajudarem. Noutras vezes estava sempre ao telefone com o D* para ele ir ter comigo (fi-lo faltar a muitas aulas), noutras com a minha irmã, mas o bebé tinha nascido há pouco tempo e ela não podia ter muito tempo para mim. Liguei muitas vezes à Mi e ao Fon, estava com eles, e lembro-me perfeitamente de uma vez que combinámos ir ao cinema para eu não estar sozinha em casa; jantámos pelo centro comercial e, no momento em que decidimos ir comprar os bilhetes, comecei a imaginar-me na sala escura, fechada, comecei a hiperventilar e disse-lhes que não conseguia ir. Eles foram compreensivos, ficámos pelo centro comercial mais um bocado, eu já não aguentava mais e fomos até minha casa, onde eles me fizeram companhia até a minha mãe chegar. 
Eu não conseguia comer; o ato da comida passar pela garganta incomodava-me, tinha receio de sufocar. Não tomava banho sozinha em casa, nem com a porta completamente fechada; tinha medo de ter uma paragem digestiva, de desmaiar e bater com a cabeça. Deixei de conduzir em alturas de muito trânsito porque tinha medo de ter um ataque de pânico enquanto conduzia e provocar um acidente. Deixei de aparecer na universidade, faltei a praticamente todas as aulas (a maior parte não era obrigatória), e quando apareci a um exame, lembro-me da cara de choque de uma das minhas colegas: na altura pesava menos de 50kg, estava pálida que nem um fantasma, com olheiras monstruosas, e um ar deplorável.

Numa das vezes que fui para as urgências, a minha mãe foi lá ter depois quando saiu do trabalho mais cedo, e chegou à beira das lágrimas e disse-me que assim já não podia ser. Disse-me que tinha marcado uma consulta no psiquiatra e eu revoltei-me; 'psiquiatras são para loucos', disse-lhe eu e não quis ir, disse que estava bem e que aquilo não ia voltar a acontecer. (já estou a chorar, só de me lembrar...) A minha irmã conversou comigo, fez-me ver a verdadeira extensão da preocupação da minha mãe e eu acedi ir à consulta. Gostei muito do médico com quem falei. Ele tentou fazer-me ver com humor algumas das situações e ver que não eram situações de vida ou de morte. Quando começámos a chegar à raiz da situação, é que comecei a ficar nervosa; já não falava tão livremente, comecei a brincar com o anel que tinha e a olhar muito em todas as direções menos para ele, e quando ele chamou a minha mãe aí é que eu me desfiz em lágrimas (tal e qual como agora). O que ele disse, já eu sabia: eu coloquei uma pressão muito grande em mim mesma, sem pressão de terceiros, para acabar o curso o mais depressa possível para deixar de dar encargos financeiros à minha mãe, porque eu não queria que a minha mãe tivesse dificuldades por minha causa. Disse também que eu tinha problemas com o meu pai (nenhuma novidade aí) e ofereceu-se a pagar a consulta, fazer um pro bono, caso não pudéssemos, caso a minha mãe estivesse a fazer um esforço muito grande para eu poder estar ali naquele momento, e que o importante era que eu conseguisse recuperar. Relembrar tudo é doloroso, é só baba e ranho deste lado (lol...), mas é também terapia; é ver o que passei e o quão recuperei. O psiquiatra perguntou-me se eu queria tomar medicação e eu recusei; 'eu consigo sem os medicamentos', 'ok, então da próxima vez que tiveres um ataque, foca-te na respiração e nestas táticas'. 

Não demorou muito até os ataques voltarem, até não conseguir controlar. Tinha tido uma consulta havia pouco tempo e a médica, por eu ter princípios de anemia, pediu para fazer uma ecografia uterina e a minha mente voou: poderiam ser quistos, poderia ser algo mais maligno, poderia ter cancro e ir sofrer uma batalha tão grande tão jovem. Fiz a ecografia, os resultados voltaram mais do que normais. Acho que o momento decisivo foi quando comecei a ter dores no coração; adormecia com pontadas, acordava com pontadas, ao inspirar sentia uma espécie de agulhas no coração e tive um ataque mesmo antes de ir para o médico. Chorava, dizia que não queria ir, tinha muito medo do que poderiam dizer, enrolei-me (literalmente) numa bola, e foi aí que tomei o meu primeiro calmante. 
Quando me acalmei minimamente, olhei muito séria para a minha mãe e disse 'Preciso de ajuda, não consigo sozinha'. Nesse mesmo dia à tarde, eu e o D* fomos a uma consulta, eu pedi para entrar sozinha, e chorei muito com a médica; era uma médica de medicina familiar que eu não conhecia, mas ela foi tão compreensiva, ouviu-me até ao fim, abraçou-me e disse-me 'Vai correr tudo bem'. Foi uma tarde muito difícil para mim: tinha tanta, mas tanta vergonha. Há tantas pessoas com problemas mais graves que o meu, situações mesmo de vida e morte, e ali estava eu, a chorar porque tinha stress, uma miúda com 22 anos a queixar-se de não conseguir lidar com a sua vidinha. A médica disse-me que eu tinha ansiedade generalizada e que me ia prescrever medicação antidepressiva e aí caiu-me tudo: 22 anos e a tomar antidepressivos? Como iria eu conseguir lidar com situações mais difíceis que a vida me traria quando fosse mais velha? Não era o final do mundo, mas era como cair num poço. A médica pediu-me também, quando me sentisse mais estabilizada, para tentar descobrir a causa dos ataques, o que os despoletava e o que era que estava verdadeiramente por trás deles, e para tentar arranjar forma de lidar com eles. Quando fui à farmácia levantar os medicamentos, o senhor técnico que lá estava deu-me um olhar de compaixão que comecei a chorar também na própria farmácia e tive vergonha de mim mesma. 

Tive vergonha durante muito tempo mesmo; só contei ao meu pai o que se estava a passar meses depois de começar a tomar a medicação, e os meus avós nunca souberam. Amigos com quem estava todos os dias, alguns colegas da faculdade, esses só souberam um ano depois, altura em que eu já tinha parado um dos medicamentos e estava no processo de parar o outro. Sim, porque eu fiz o que a médica me disse e pensei; pensei durante muitas semanas, fiz muitas introspetivas, escrevi, tentei lidar e fiz uma promessa a mim mesma - eu não vou depender os medicamentos. Porque, tal e qual como a médica disse, há um ponto em que o nosso corpo precisa de ajudar, precisa de algo para ajudar a levantar e a estabilizar, e depois depende de nós. Eu prometi que não dependeria dos medicamentos para me sentir bem por uma razão muito simples: medo de mim própria, medo de não ter força de vontade suficiente para me manter de pé e lidar, medo de me refugiar por trás da medicação e não querer enfrentar a realidade. Assim, no dia em que fez os seis meses que estava a tomar os medicamentos, falei com a minha médica de família e pedi para parar de tomar; ela perguntou-me se eu estava pronta, que não havia problema em continuar mais um pouco, mas eu disse que não e ela preparou um esquema de desmame - primeiro o antidepressivo, e depois o calmante. O desmame do antidepressivo não foi fácil, demorou mais do que previsto, mas consegui parar; esperei até ter entregue a tese para fazer o desmame do calmante, e esse foi fácil, decorreu no tempo previsto. Lembro-me de estar a estudar a parte dos antidepressivos para a cadeira de farmacologia e de ter saltado esse capítulo à frente; dava-me ansiedade ler sobre aquilo e até hoje nunca peguei naquela matéria - tudo o que sei é por experiência própria. 

Se em três anos nunca mais tive um ataque de pânico? Nunca mais tive com aquela intensidade, porque sei o que são, os sinais iniciais, e vou controlando, mas eles de vez em quando aparecem. Não sei se ficaram até ao fim, bem sei que é um texto muito longo. Isto para mim, a partilha, é terapia, mas espero também que inspire alguém, nem que seja apenas uma pessoa; não estão sós, não estamos sós, e o mais importante, o mais difícil, é passar a vergonha e admitir quando precisamos de ajuda. Ter alguém com quem partilhar, alguém que esteja lá para ajudar, nem que seja com a sua presença, é fundamental; eu não sei como teria lidado tudo sem a minha mãe, sem o D*, sem a minha irmã, sem a Mi e sem o Fon. Eles foram a minha rede e já lhes agradeci não sei quantas vezes e agradeço uma vez mais, porque eu sei que o Fon lê o blogue com frequência e para mim foste muito, Fon!
Não fiquem em silêncio, não sofram sozinhos. Podem achar que a ansiedade agora está na moda, mas não é verdade; os jovens estão sujeitos a pressões enormes da sociedade e cada vez mais há mais casos de stress e ansiedade entre os mais novos. O importante é passar a vergonha, o estigma, e pedir ajuda.

3 comentários :

  1. Eu comecei a ter ataques assim aos 16 e a tomar anti-depressivos aos 17, portanto se te achavas nova imagina o que eu pensei :s
    A minha pedopsiquiatra na altura para além dos medicamentos mandou-me para um grupo de controlo de ansiedade e doenças crónicas (de coração e dos pulmões) onde treinavamos a respiração e onde fomos aprendendo o que fazer em casos mais graves.
    Muitas das coisas que lá me explicaram eu já sabia.
    Entretanto entrei para um grupo de jovens e fez-me um bem tão, mas tão grande que quando estava quase a fazer 18 fui a uma consulta e a médica depois de me conversas comigo e ver o meu progresso me deu alta, e disse para reduzir nos anti-depressivos até parar completamente.
    Dois anos depois aqui estou eu, ainda com ataques de vez em quando, uns mais fortes do que outros porque há vezes que uma pessoa simplesmente não consegue controlar, por mais que pense na respiração e outras coisas. Para além disso tenho muito dessas dores na caixa torácica em que parece que me estão a espetar...
    Mas uma pessoa aguenta e ultrapassa!
    Gostei muito de ler a tua história! :)

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    1. Obrigada pela tua partilha. Estes assuntos por vezes são difíceis, porque uma pessoa tenta fazer-se de forte, mas tem de saber pedir ajuda.
      Hoje não estou nem perto, felizmente, do que estava nessa altura, daí que consiga partilhar sem ter mega ataque. Aos poucos vamos ver se nos conseguimos livrar disto, sim? ;-)

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  2. Olá Ariadne.

    O ano passado tive uma crise depressiva, isto já depois de ter começado a fazer terapia para a ansiedade. Passei dias muito maus, sensações de pânico durante a noite, e estava a ser seguida por um psicólogo.

    Só melhorei a sério quando fui a um psiquiatra. Receitou-me um antidepressivo fraquinho e um ansiolítico, tudo em doses baixas. Comecei a melhorar gradualmente, a ver o mundo com outros olhos e a reagir. Consegui, nessa altura, e graças à serenidade que ganhei, começar a cumprir um dos sonhos da minha vida: ser mãe.

    Gradualmente, comecei a reduzir as doses, até hoje em que não tomo bem. A gravidez pode trazer-nos este bem-estar, por isso não posso ter a certeza de que não terei de recorrer de novo a medicação. Mas sei que funciona e que nos ajuda a pensar mais claramente.

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