Atualidade Farmacêutica e Médica

sexta-feira, fevereiro 26, 2016 Ariadne 1 Comments

Esta notícia do Jornal Expresso reporta algo que já vem sendo discutido há muito tempo pela Associação Nacional de Farmácias e pela Ordem dos Farmacêuticos entre o Governo. Basicamente, e não liguem ao título porque engana, nas farmácias vai ser possível conceder ao utente o valor da comparticipação de uma receita sem que este tenha de se dirigir ao médico para pedir receituário novo. Isto apenas vai ser possível para doenças crónicas, ou seja, uma doença que o utente vai ter para a vida e que, uma vez controlada, a medicação pouco ou nada varia; são doenças como hipertensão arterial, hipercolesterolémia, diabetes, asma. 
Claramente, este tema está a suscitar todo o tipo de reações na comunidade médica e na comunidade farmacêutica. Os médicos acham que as farmácias não devem ter esta aptitude porque faz com que o utente deixe de ser controlado, os farmacêuticos acham que têm competências para controlar o utente e o encaminhar para o médico se a terapêutica já não se considerar adequada.
A minha opinião.... A minha opinião tem várias vertentes.

Compreendo a comunidade médica. Se o utente já só vai ao centro de saúde de 6 em 6 meses (o período normal de validade de uma receita médica), poucas oportunidades têm de avaliar novamente o doente, para falar com ele, saber como tem passado, se tem novos sintomas, se a medicação anda a fazer efeito. 
Compreendo a comunidade farmacêutica. Ao longo do curso universitário e da carreira em farmácia comunitária, adquirimos a experiência necessária para avaliar potenciais problemas relacionados com a medicação, 'diagnosticar' afeções menores, interpretar análises laboratoriais; também é verdade que somos em muitos casos o primeiro contacto do utente com um profissional de saúde.

Agora, eis outra realidade que os médicos não referem. Os centros de saúde, ou atualmente Unidades de Saúde Familiar, estão atoladíssimas em trabalho; os médicos estão sobrecarregados de doentes, muito por culpa do próprio Estado, que não contrata mais médicos, ou não oferece incentivos suficientes para um médico fazer a sua especialidade em Medicina Geral e Familiar. Os médicos dizem que esta medida vai fazer com que os utentes deixem de ir à consulta médica, uma altura que pode ser de reavaliação e diagnóstico; no entanto, certa percentagem de utentes já deixou de ir à consulta médica para ir buscar a medicação habitual, ou seja, medicação que fazem sempre para doenças crónicas (a tal medicação que a nova medida abrange). Os utentes passam pelo centro de saúde, na receção pedem renovação do receituário, pagam 3€, e daí a dois ou três dias vão buscar o receituário, tudo sem serem vistos pelo médico. 
Ou, nos casos em que o utente vai à consulta, depois de dois ou três meses à espera (no melhor dos casos), quantos não são os médicos que simplesmente passam as receitas, uma ou outra credencial para exames, e em cinco minutos está a consulta feita.

Outra coisa, a maior parte dos farmacêuticos julgava-se o senhor do universo, mas da mesma forma que existem maus médicos, existem maus farmacêuticos. Existem farmacêuticos que não têm conhecimentos suficientes sobre medicação para avaliar se existe ou não um potencial problema ou se a terapêutica já não é adequada. Nas farmácias existem métodos de controlar os níveis de colesterol, glicémia, triglicéridos (os parâmetros bioquímicos 'básicos' e de patologias crónicas), e sim, o farmacêutico (quem diz farmacêutico diz técnico de farmácia; nunca se deve desvalorizar um técnico de farmácia só porque tem um grau académico diferente!) conversa muito com o utente, conhece o utente, tenta educá-lo para tomar a medicação corretamente, tenta identificar se o medicamento que já toma há anos ainda está a fazer efeito. No entanto, o farmacêutico, a não ser que já tenha 20 anos de carreira e tenha passado por diversas farmácias em que apanhou realidades diferentes, não será tão capaz de fazer um diagnóstico quanto um médico e há muitos farmacêuticos que ainda não perceberam isso.

Com esta medida, o Governo está de facto a tentar colmatar falhas nos centros de saúde, mas também está a querer dar mais vantagens às farmácias. É tudo um negócio, minha gente. Apesar de muitos profissionais de saúde (quer médicos, quer farmacêuticos) acharem que esta medida é para permitir ao farmacêutico substituir o médico, eu não a vejo dessa forma, porque 'cada macaco no seu galho'. No meu entender, esta medida é para facilitar o valor da comparticipação dos medicamentos aos utentes. No fim, são os utentes quem melhor vão implementar esta e outras medidas. Se o utente já não ia à consulta médica, a culpa é do utente; se o utente prefere levantar os medicamentos habituais sem receita médica porque a burocracia para obter uma receita médica não compensa o valor da comparticipação, a culpa é do utente, do Estado, e das farmácias. 
No meu entender, esta medida é benéfica em particular para os utentes que têm dificuldades económicas e de mobilidade, porque permite-lhes obter o valor da comparticipação para a medicação habitual, só têm de se deslocar a um local para obterem a medicação. Cabe à farmácia educar o utente para mesmo assim ir à consulta médica e fazer uma reavaliação, cabe ao Estado impor limitações na medicação que pode ser levantada desta forma. 
Como todas as medidas, há aspetos positivos e negativos; depende muito da forma como é implementada e cumprida.

1 comentário :

  1. Eu tenho uma doença crónica, psoríase. Se os medicamentos tópicos não estiverem a funcionar, tomo eu a iniciativa de ir ao médico. É um disparate ser obrigada a ir buscar receitas.
    Agora, tem que haver bom senso de todos. Se as pessoas não têm o discernimento de perceber quando é que têm que ir ao médico, e perguntam ao farmacêutico o que tomar, deve ser o próprio farmacêutico a tomar a iniciativa de dizer ao utente que se deve dirigir a uma consulta médica.
    Já sei que isso depois não funciona assim, mas penso que a medida é boa no sentido de facilitar a vida às pessoas. Até porque muitas das vezes que se vai ao posto médico o médico pouco ou nada faz, mal observa o paciente. É normal que muita gente se interrogue porque raio vão para o posto médico às 6 da manhã quando o farmacêutico pode ajudar. E não duvido dos conhecimentos deles, acho que são capazes. O maior problema é mesmo não saberem o histórico do utente.

    No fundo vai tudo de encontro ao que já está dito no post =)

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