A morte

sexta-feira, maio 06, 2016 Ariadne 0 Comments


A morte do meu tio/padrinho fez-me refletir um pouco sobre a minha perspetiva da morte. Eu entendo perfeitamente o conceito de morte e de uma vida que deixou de existir, mas para mim, neste momento, não consigo interiorizar o conceito de uma pessoa desaparecer para sempre. É estranho explicar, mas eu tenho visto a morte de uma pessoa como se simplesmente deixasse de falar com ela, não como alguém que deixou de existir, mas como alguém que está distante e perdemos o contacto uma com a outra. Pode parecer muito estranho e impessoal.
A minha avó morreu há quase nove anos, mas para mim desapareceu há muito mais tempo porque a minha avó passou por uma fase muito má em que deixou de conhecer fosse quem fosse, e eu não quis ficar com essa avó na memória e nunca me pesou na consciência não a ter visitado no centro de cuidados paliativos. Eu preferi ficar com as memórias da avó que me ensinou a fazer pão, que me levava aos mercados, que todos os dias me dava lanche na caneca vermelha quando saía da escola, que me levava à praia. Essa avó nunca desapareceu, nem quando o corpo dela deixou de ter vida; na minha mente, simplesmente perdi a capacidade de falar com a minha avó, como se ela tivesse ido para um sítio em que não nos falamos, mas continuamos a existir. Eu não acredito em coisas espirituais, nem conceitos de Céu/Inferno; morreu, ficou sem vida, enterrou, não há cá mais nada. 

Agora com a morte do meu padrinho, uma morte inesperada sem o verdadeiramente ser, penso o mesmo. É como se tivéssemos ido viver para duas partes diferentes do mundo e não temos contacto um com o outro. Não consigo interiorizar o conceito de desaparecer para sempre, deixar de existir. Compreendo a morte, mas enquanto houver memória, aquela pessoa existe; simplesmente não conseguimos falar um com o outro como dantes. No entanto, há momentos, momentos difíceis. Estou sempre à espera de o ver nos sítios habituais, de passar numa certa rua e de o ver à porta do café. O funeral foi muito difícil e os dias que se seguiram não têm sido melhores. Se pudesse, teria ficado em casa e não teria ido trabalhar.

Se vou continuar assim? Não sei. Sei que há momentos em que as saudades são muitas mesmo e dói. No entanto, eu prefiro preocupar-me com quem ficou do que com quem partiu, porque quem partiu já não sofre, e o meu pai neste momento está a sofrer muito e eu quero estar presente o maior tempo possível para lhe dar o maior apoio possível.

Até já avó. Até já avô. Padrinho, sempre foste muito ligado aos teus pais e quiseste ir ter com eles. Portem-se bem!...

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