FÉ PERDIDA NA FARMÁCIA COMUNITÁRIA EM PORTUGAL

terça-feira, agosto 02, 2016 Ariadne 1 Comments

Perdi tanto a motivação para estar em farmácia em Portugal. Estou farta de o meu trabalho se resumir a algo completamente automatizado, sem grandes desafios. Estou farta de ser vista como uma pessoa que está ali só para vender as caixinhas que as pessoas querem, sem uma consideração pela preocupação de ser o melhor ou não para a situação delas. Estou farta dos horários, horários de loja, sem estrutura ou condições; se eu tivesse filhos para criar, estava tramada. Estou farta da falta de respeito. Eu não estudei para isto; eu não estudei para ser vista como uma empregada, alguém cuja preocupação deve ser vender cremes! Tipo, eu não trabalho numa Douglas, eu trabalho numa farmácia. 

O problema das farmácias em Portugal é que o maior rendimento advém da venda de cosmética e não de medicamentos; por isso, para além de me certificar que estou a dar o medicamento correto ao meu utente, também tenho de me preocupar em vender o maior número possível de cremes para assegurar um valor de caixa elevado. Estou farta da falta de respeito das pessoas. Vêem alguém atrás do balcão como alguém para as servir, que lhes vai dar o que elas querem; quando não lhes vendo o mendicamento que suas excelências querem (por diversas razões: não ser o medicamento adequado às queixas, medicamento sujeito a receita médica, não ser adequado à idade), cai o Carmo e a Trindade! Começam insultos, ameaças de queixa ao Diretor Técnico, exigência de serem atendidos por outro colega porque eles são clientes muito antigos e os novos funcionários não sabem como gostam de ser atendidos, exigência de falar com o Diretor Técnico. Oh por favor, estou farta de ser vista como uma incompetente, quando claramente não o sou; não há respeito pela figura do farmacêutico comunitário porque passou a ser visto como um empregado de loja que está ali para servir o cliente. 

Eu estudei para, e ainda acredito nisto, ajudar o utente a ter o melhor cuidado de saúde que estiver ao meu alcance, a perceber o medicamento que está a tomar, a escolher o melhor medicamento para si, a encaminhar para o médico quando necessário, a gerir uma farmácia, a detetar erros de medicação, a contribuir para a saúde pública, porque saúde é tudo o que queremos, e medicamentos fazem parte da vida de todos nós, e os medicamentos não devem ser vistos como algo leviano, que é como a maior parte das pessoas os vêem, e não nos levam a sério quando nós advertimos. Eu sou muito exigente com as minhas estagiárias no que toca à medicação, à venda de medicamentos, à dispensa de receitas, porque aquilo não é brincadeira; um medicamento cura, mas um medicamento mata, até algo tão banal como paracetamol e aspirina e ibuprofeno. O uso racional do medicamento é algo menosprezado pelas pessoas e isso é em parte pelo desrespeito da pessoa que lhes vende o medicamento: farmacêutico, técnico, auxiliar, funcionário do Pingo Doce. 

Eu não estou a dizer que não vou apanhar pessoas menos más, um público fantástico. Claro que também irei lidar com pessoas difíceis, mas há uma diferença que eu noto bastante quando estou a trabalhar e a atender público do UK e da Irlanda - respeito! Não é não, conselho é ouvido, opinião é levada em conta; pode não ser seguida, mas eles respeitam que a pessoa que está à sua frente especializou-se no uso do medicamento e que sabe do que está a falar. A grande razão é que no país deles, as leis são cumpridas (cá o problema não é a ausência de lei, é o facto de não ser cumprida, porque se farmácia X vende o medicamento mesmo sem receita, a farmácia Z sente-se obrigada a desrespeitar as regras para não perder clientes), e o farmacêutico não está disponível ao balcão; na minha opinião, e devido à mentalidade dos portugueses, o facto de o farmacêutico estar ao balcão não é uma mais valia, é uma banalização do seu conhecimento.

1 comentário :

  1. Realmente nunca pensei nisso, vejo os senhores da farmácia como médicos que estão ali para nos dar as melhores indicações. Aqui onde vivo frequento 2, uma delas (onde se fazem as caminhadas) até tem uma clínica de podologia e nutrição.

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